[Opinião] Do underground ao mainstream

Começo esse post repetindo exatamente o que está escrito no título. Opinião! Do underground ao mainstream. De tempos em tempos surge uma cruzada entre o bem e o mal, entre o capital e a independência, entre tantas outras dualidades, ao melhor estilo Guerra Fria, com lados acirrados e muita ideologia.

wals ambev bohemia

Quem acompanhou em algum momento da vida a cena de rock, seja no Brasil ou no Mundo, notou várias dessas “batalhas”. A banda era legal e foda até assinar com uma gravadora, para então ser taxada de vendida. Ora, as pessoas clamavam para ver o show da banda, mas a banda não podia ir até a sua cidade, pois não havia dinheiro. Com a gravadora turnês, mais álbuns, clipes, gravações ao vivo ocorriam e obviamente a banda se tornava acessível. Música ruim? Nem um pouco, mas havia altos e baixos, como em qualquer banda.

Aí que, aqueles mesmos que tanto criticavam, agora adoravam ver o show daquela turnê do melhor disco na sua cidade, e o melhor, podiam comprar o disco, fita, cd, o que fosse. Pois bem, criticados e adorados como o Metallica, Ozzy, Iron Maiden, Pantera, Kiss, etc, etc, exemplos é que não faltam.

Bom, sempre havia aquele que parava de ouvir e ia procurar a sua nova banda de rock favorita, desiludido com a assinatura de um contrato dos seus outrora (sim, as vezes a coisa era de minutos, bastava saber da notícia) ídolos. E o fato ia se repetindo e repetindo. Hoje há quem diga que o rock atual morreu e o que vão ouvir os nostálgicos do assunto? As bandas “vendidas” de antigamente. Olha, exemplo clássico! os Beatles faturaram bilhões, fizeram o mesmo que as bandas vendidas fizeram, mas como o selo deles era praticamente próprio, ninguém questionou. As vezes, parece que o principal empecilho é apenas saber que o seu ídolo cresceu e que ele precisa pagar contas, que crescem com o seu crescimento. Ah, e o amor ao que é feito, como fica? Fica do mesmo jeito, quem ama, não perde o amor por crescer, mas pode desgostar do resultado final, como em qualquer projeto que a gente idealiza e não sai como planejado.

Vejo hoje o mesmo na cena cervejeira artesanal. Paladinos e idealistas lutando com unhas e dentes contra o crescimento. Calma, claro que deve ser questionado, mas não demonizado. A atual compra da Elysian Brewing e a possível compra da Cigar City pela AB-InBev, a mesma que está no centro do debate aqui no Brasil hoje, obviamente gira em torno de números. Não sejamos cegos. Mas, que atire a primeira pedra quem teria coragem de dar a cara a tapa igual o pessoal da Wäls fez. Eles com certeza sabiam das críticas que viriam de consumidores, parceiros, concorrentes e até mesmo de amigos. Repito, quem teria coragem? Eles estão se lançando nos Estados Unidos com a Novo Brazil Brewing. Repito mais uma vez, quem teria coragem? Não é só dinheiro que faz isso, é vontade.

Em menos de 10 minutos de anúncio, ainda extra-oficial, já chovia gente na internet dizendo que não iria mais consumir, que viraria milho, mimimi. Sério? De repente a sua Petroleum favorita é lixo? Tento, mas não entendo. Aliás, não é caso exclusivo do Brasil, mas aqui a coisa se acirra, quem faz sucesso e cresce logo é hostilizado. Mesmo antes da divulgação feita hoje, envolvendo a Ambev e sua marca Bohemia, já tinha gente criticando a Wäls por fazer uma nova fábrica no Brasil e criar a cervejaria nos Estados Unidos. Claro que todo mundo está muito confortável com o que tem hoje e não almeja crescer, afinal é ser vendido né?! Vamos recusar aquela promoção que o chefe ofereceu então…

Mesmo com essas contradições, sejamos francos. O que a Ambev possui é uma estratégia clara de criar braços maiores no seguimento artesanal. O que ela faz com as demais cervejarias mainstream no mundo é concentração de mercado. Hoje ninguém produz tanto quanto ela e a segundo lugar, a SAB Miller, já foi sondada para uma megafusão predatória. Quer mercado mais concentrado que esse? A Heineken e a Carlsberg, que correm logo atrás das duas primeiras, nem se juntassem forças chegariam à metade do que a nova gigante poderia produzir. Agora, comprar algumas cervejarias artesanais é concentração de mercado? Concentração é comprar todas ou pelo menos a maior parte.

Monopólio ou oligopólio gera distorção no mercado. Estamos vendo isso na pele em como a Petrobras, detentora do monopólio do petróleo do Brasil gera gasolina com preço defasado, prejuízos, etc. Será que a compra, ao menos até então isolada da Wäls irá distorcer o mercado? Acho muita crítica pra algo ainda tão incipiente. Eisenbahn e Baden Baden, ambas propriedade da Brasil Kirin, não geraram distorção alguma e o mercado continuou crescendo.

A moral, é que talvez não tenha moral. Uma parte da polêmica vem dos seus olhos, não dos fatos. Já tem cervejaria dizendo que é 100% artesanal e independente. Bacana, de verdade. Mas, será que um cheque volumoso é capaz de mudar isso?

Essa é a reflexão. Vamos lembrar que artesanal é, antes de mais nada, um processo, não apenas uma ideologia em si. Tem muita artesanal que é pior que mainstream e muita mainstream que é bem melhor que artesanal. Pra quem leu até aqui, o título é uma analogia entre o underground/artesanal e o mainstream/cervejas de massa.

Diante disso, afirmo: sucesso à Wäls. Que tenham feito a melhor escolha e que possam usufruir de fato do melhor apoio que puderam encontrar com seus novos parceiros. A qualidade da cerveja? A cada gole à partir de hoje vamos ver o que irá acontecer. Aos pessimistas, se acham que vai virar “milho”, até segunda ordem só lamento. Aos otimistas, o que podemos esperar de novidades e de melhor controle de qualidade?

 

Abram uma Wäls e/ou uma Bohemia, com ou sem ironias. Cabe à você também esperar para ver.

 

Saúde!

By | 2015-02-10T16:50:34+00:00 February 10th, 2015|Curiosidades, Notícias|1 Comment