Dogfish Head Day – Part. I

Quem curte cervejas artesanais certamente já se deparou em algum momento com o nome Dogfish Head. Criada em 1995 por Sam Calagione em Milton, Delaware, trata-se de uma das mais aclamadas e criativas cervejarias americanas. Infelizmente, por não ser exportada para o Brasil e para quase nenhum país (mal atendem o mercado americano, tamanha demanda), dei um jeitinho de conseguir 19 diferentes garrafas e fiz o Dogfish Head Day. Aqui vocês podem conferir ao longo de uma série de três posts, a iniciar por este, o que é a cervejaria e um pouco de suas criações.

Nesta part. I, vamos começar pela série Ancient Ales, um misto de cervejas + ciência + história. Fruto da parceria com o bioarqueólogo, Dr. Patrick MacGovern (Dr. Pat), da Universidade da Pensilvânia e um dos maiores especialistas em bebidas antigas do mundo, com Sam Calagione. Esse trabalho conjunto teve sua origem em 1999, porém a pesquisa do Dr. Pat já se estendia ao longo de duas décadas viajando o mundo em busca de antigos recipientes e receitas de bebidas fermentadas.

sam calagione dogfish head dr patrick macgovern

Sam Calagione e Dr. Pat no lançamento da Ta Henket

Nessa jornada ele recuperou receitas de até 9 mil anos ao analisar os vestígios nos jarros encontrados. Mas, não bastava achar e identificar do que eram feitas essas cervejas, era preciso recriá-las e aí que entra a figura da Dogfish Head. O objetivo era usar tecnologia moderna para reconstituí-las, mas usando ingredientes e alguns processos à moda antiga. Esse trabalho deu origem inicialmente a seis cervejas. Chateau Jiahu, Ta Henket, Midas Touch, Birra Etrusca, Theobrama e Sah’Tea. Em 2013 somou-se a sétima, com a Kvasir, originada dos nórdicos da Escandinávia.

Dogfish head Ancient Ales coaster

Cada uma delas foi apreciada seguindo as sugestões de harmonização da própria Dogfish.

 

Ta Henket

Estilo: Spice/Herb/Vegetable Beer com 4,5% ABV

Copo ideal: Pint

Dogfish Head Ta Henket

De acordo com algumas teorias originadas de escavações no complexo de Gizé, os trabalhadores das pirâmides eram pagos com pão e cerveja. Era fato que ninguém seria feliz carregando aquelas pedras enormes sem um happy hour regado a cerveja depois. hehe Além disso, a cerveja foi parte da dieta de faraós, adultos e crianças de todas as classes sociais, utilizada como medicamento, presente, oferenda aos deuses e acompanhavam as tumbas dos mortos para o pós-vida. Uma sociedade que sabia o que era bom e valorizava isso.

dogfish head ta henket

Com o hábito de registrar tudo, eis um hieróglifo retratando a produção de bebidas

Identificadas como henket ou zythum, existiam inclusive hieróglifos específicos para cervejeiro e cerveja.

dogfish head ta henket

Hieróglifos referentes a atividade cervejeira no Antigo Egito

A Ta Henket ( já deu para entender a razão do nome né) é originada de uma ida ao Egito, de Sam e Dr. Pat, para descobrir como eram feitas as cervejas desse povo há mais de 4.000 anos atrás. O destino foi Saqqara para ver o túmulo de Ti, uma rainha. Após identificarem alguns ingredientes nos hieróglifos como a camomila e pão, foram ao mercado local e selecionaram um tipo de açúcar duro da região, uma mistura de especiarias chamada Za’atar (orégano, manjericão e tomilho, doum (uma fruta local considerada uma iguaria), além de recolherem leveduras selvagens no Cairo.

Mas vamos à cerveja. Sua espuma é branca de boa formação e baixa persistência. No aroma as especiarias aparecem de imediato, em especial a camomila, parece até que você está diante do chá. Também há presença do malte e pão, devido ao cereal do trigo utilizado. Bastante floral, o que agrada bastante, e um pouco cítrica. No sabor o cítrico aparece novamente, bem discreto, especiarias (mais camomila), levemente picante e malte.

O álcool está bem inserido, apesar de ser bem discreto nos seus 4,5%. A carbonatação é média e a cor cobre claro semi turva. Ela possui um corpo leve, parece ser bem característico para servir como parte das refeições do antigo Egito. Uma cerveja para todo dia!

Foi harmonizada com um filé de tilápia e vegetais como pimentão, cebola e batata.

degustação dogfish head

Tilápia sendo preparada

 

De acordo com um provérbio egípcio datado de 2200 a.C no templo dedicado a deusa Hathor em Dendera:

A boca de um homem perfeitamente contente está repleta de cerveja.

Quando encontrar uma Ta Henket peça em egípcio antigo:

Wekha henqet!

 

Birra Etrusca

Estilo: Spice/Herb/Vegetable Beer com 8,5% ABV

Copo ideal: Snifter

Dogfish Head Birra Etrusca

Os etruscos eram um aglomerado de povos que viveram na península Itálica na região de Etrúria a sul do rio Arno e a norte do Tibre, mais ou menos equivalente à atual Toscana. Eram uma civilização avançada, guerreira e expansionista, chegando a exercer influência sob os romanos antes da criação e consolidação do Império Romano.

A Birra Etrusca é originada de achados em frascos de 2.800 anos, encontrados em tumbas etruscas. Desta vez o Dr. Pat e Sam Calagione tiveram a ajuda de outros dois cervejeiros. Leonardo Di Vincenzo, da Birra del Borgo, e Teo Musso, da Baladin. Como ingredientes a Birra Etrusca leva duas linhas de cavada maltada, trigo italiano, farinha de avelã, romãs, mel de castanha italiana, mel de flores silvestres de Delaware e mel trevo, raiz genciana e resina a mirra etíope salsaparrilha, responsáveis pelo amargor.

A Etrusca possui espuma branca de baixa formação e persistência. No aroma muito mel, notas herbais e avelã, além de uma sutil lembrança com vinho. No sabor ela é doce, mas nada enjoativa, notas de romã, mais mel, especiarias, levemente resinosa e o que parece um pouco de lúpulo. O álcool é bem perceptível com seus 8,5% e muito bem equilibrado. Sua cor é âmbar um pouco mais avermelhada, opaca e a carbonatação é média. Ótima cerveja!

Harmoniza com azeitonas. Afinal, na região do mediterrâneo esse é um alimento típico.

 

Midas Touch

Estilo: Spice/Herb/Vegetable Beer com 9% ABV

Copo ideal: Snifter

Dogfish Head Midas Touch

 

Midas é um personagem da mitologia grega, rei da Frígia e a ele é atribuído o mito de transformar em ouro tudo que tocava. Mas, Midas é um desses casos em que a história comprova a existência. Localizada a tumba e seu caixão com idade de 2.700 anos, em 1954, em Gordiom (hoje Yassihüyük, Turquia) antiga capital da Frígia. E não era só isso, junto havia restos do banquete fúnebre com iguarias e bebidas, dentre elas uma bebida fermentada que deu origem a Midas Touch! Inclusive, essa foi a primeira cerveja da série Ancient Ales, que ao contrário das demais, passou a ser uma cerveja produzida o ano todo pela Dogfish.

Dentre seus ingredientes, leva uvas moscatel, açafrão e mel. Não há lúpulo em sua formulação. É uma cerveja essencialmente doce e que remete ao hidromel e o vinho branco.

Sua espuma é branca de baixa formação e persistência. No aroma notas doces, uva, especiarias, mel e bastante floral. No sabor se assemelha bem a um vinho branco, beirando a acidez e o doce da uva. Final seco e ácido, mas que depois deixa um doce suave. Sua cor é amarelo dourada e possui média carbonatação. Álcool, apesar dos 9% é bem discreto. Uma baita cerveja, muito bem equilibrada!

Harmonizada com tilápia preparada com temperos apimentados.

 

Theobroma

Estilo: Specialty Beer com 9% ABV

Copo ideal: Snifter

Dogfish Head Theobroma

civilização Maia foi uma cultura mesoamericana pré-colombiana. No seu auge, era uma das mais densamente povoadas e culturalmente dinâmicas sociedades do mundo. A influência dos maias pode ser detectada em países como Honduras, Guatemala, El Salvador e na região central do México. Dentre as várias iguarias utilizadas por este povo, estava o cacau e uma bebida originada dele.

Como descrita pela própria Dogfish, Theobroma (alimento dos deuses em grego) é uma celebração ao chocolate. Desenvolvida a partir de uma análise química de vestígios em potes de argila de 3,2 mil anos, pertencentes aos maias, encontrados no Vale Ulua, Honduras. Foi fabricada com chocolate artesanal, cacau, mel, pimenta e urucum.

Sua espuma é branca, de boa formação e baixa persistência, que logo se desfaz, deixando uma bela e fina linha no copo. No aroma o chocolate predomina junto com o dulçor do mel. Logo em seguida as notas da pimenta também surgem. Uma mistura muito boa. No sabor muita complexidade com o chocolate, mel e especiarias. Floral, álcool presente, mas equilibrado. O interessante é ser uma cerveja que leva chocolate, porém de cor clara. Sua cor é acobreada, turva, originada do urucum. Carbonatação é média e o final é bem achocolatado.

Harmonizada com pistache e castanha-do-pará.

 

Chateau Jiahu

Estilo: Spice/Herb/Vegetable Beer com 9,6% ABV

Copo ideal: Tulipa

Dogfish Head Chateau Jiahu

Segunda cerveja fabricada da série, ela é baseada em achados de uma tumba chinesa, na vila neolítica de Jiahu, província de Henan, com cerca de 9 mil anos. Esta é nada mais e nada menos que a receita de bebida fermentada mais antiga já achada, sendo inclusive mais antiga que as receitas de vinho.

Produzida com arroz, uvas, mel, crisântemo, cevada e frutas de pilriteiro, uma espécie de fruta vermelha típica da Ásia.

A espuma da Jiahu é branca de média formação e baixa persistência. No aroma notas de mel, floral, uva com suas nuances ácidas, levemente cítrica, malte e lúpulo. Sim, uma bomba de cheiros sensacionais! No sabor ela é adocicada, remetendo ao vinho e saquê, licorosa, levemente cítrica e frutada, lembrando um suco de maçã. Álcool equilibrado e que se destaca um pouco à medida que esquenta no copo. Final seco e cítrico, carbonatação médica e cor acobreada tendendo para o alaranjado e turva.

Harmonizada com provolone apimentado defumado.

Para pedir uma Jiahu, basta falar:

Ching gay woh ee bay pee joh!

 

Nota do editor – As cervejas da série Ancient Ales são muito interessantes. A perspectiva de beber algo com um viés histórico é muito legal e desperta a curiosidade para procurar mais da história não só da cerveja em si, como das próprias sociedades no qual elas eram produzidas. Mais interessante ainda é perceber como os antigos, em diversas partes do mundo já fermentavam bebidas.

 

Aguarde a part. II, falaremos das IPAs.

Saúde!

 

Assista um pequeno trecho do Brew Masters, sobre a Ta Henket.

By | 2014-08-04T19:23:06+00:00 August 4th, 2014|Degustações|4 Comments