Cerveja artesanal – a subjetividade da escolha

Afinal, o que te levar a beber uma cerveja diferente? É a vontade de provar algo novo e/ou simplesmente segue o boom do mercado com a abertura de lojas e bares especializados, cursos e novas cervejarias surgindo? E o que você bebe é de fato artesanal ou é simplesmente uma cerveja comercial de outro país, mas com o diferencial de ser importada? Pois é, difícil saber exatamente como o interesse às vezes começa, o fato é que beber uma cerveja artesanal é fruto de uma subjetividade da escolha. Cada um, por motivações diferentes poderá se dispor a provar ou não a cerveja em suas mais variadas receitas e estilos.

O objetivo desse post não é apontar causas, mas refletir um pouco sobre as motivações que podem influenciar a escolha entre a que desce redondo mega gelada ou aquela cerveja que as vezes você nunca ouviu falar, mas resolveu provar e descobriu que o universo de sabores é enorme, entrando em um caminho sem volta.

Motivações

  • Argumento 1

Vamos começar por um argumento muito utilizado, a qualidade. Grandes cervejarias, como qualquer grande empresa, são conhecidas pela eterna busca no quesito custo, o que invariavelmente, em relação aos insumos e a escala não permite que se chegue a um produto final de qualidade (entenda esta qualidade como comparativo entre a cerveja de massa e a artesanal). Mas, afinal, que qualidade é essa? Nenhuma cerveja mainstream presta? Acho que é aqui que o ponto fora da curva surge.

Beber ou não beber cerveja, seja ela qual for, é uma questão de escolha. O indivíduo que opta por uma cerveja de massa não é menos exigente, menos informado ou possui menor repertório cultural para resolver desembolsar, muitas vezes, um valor maior por uma cerveja artesanal.

Essa qualidade, trabalhada na comunicação das cervejarias artesanais, apoiada por uma rede de informações com blogs sobre cervejas, cursos, posts em redes socias acaba gerando este discurso final. Que em grande parte é real. Claro que há cervejas artesanais intragáveis, mas isso é outra história.

Temos, portanto, o plausível e aclamado argumento de “beber menos e melhor”, que falaremos adiante, com produtos mais elaborados, inovadores e de qualidade superior aos de massa.

colorado ithaca degustação trip beer

Colorado Ithaca, uma cerveja de extrema qualidade, mas que muito provavelmente não irá agradar um gosto/paladar de preferências mais suaves por ser bem intensa.

Ressalto, qualidade é diferente de gosto.

 

  • Argumento 2

Justamente por ser uma questão de escolha, o ato de beber é algo pessoal e entrelaçado com o repertório que a pessoa possui, o contexto no qual ela está inserida, condição financeira e disposição para o consumo e o desembolso inerente a este processo.

Uma questão já surge. Ficar com uma cerveja de massa e ser feliz com ela é tolice? Acredito que não. Cada um irá escolher aquilo que lhe for útil/agradável/acessível/possível e claro de interesse. Pode-se ter dinheiro para comprar, acesso ao produto e de forma alguma acha-lo útil, agradável e, portanto, não se interessar por ele.

Para os ‘beerchatos’, vale lembrar que cerveja é algo feito para socializar e nesse caso as relações que a cerveja, seja ela qual for, puder proporcionar ao indivíduo de forma social, então ela cumpriu o seu papel.

cervejas brasileiras dia da cerveja brasileira degustação trip beer

Algumas das milhares de novas cervejas brasileiras. Opções de todos os estilos para todos os gostos.

Temos que lembrar também que a possibilidade de escolha anda elevada. Seja pelo sortimento de cervejas nacionais e importadas, seja pelas opções de acesso a estes produtos. Lojas virtuais, bares e empórios especializados abrem todos os dias. Restaurantes, supermercados e até botecos já possuem em seu portfólio alguns rótulos artesanais.

Mas, a escolha sem a motivação alinhada com a percepção de que aquilo vale algo financeiramente e qualitativamente, torna o acesso por si só inútil. Por isso, escolhas são objeto de intensa campanha publicitária em qualquer mercado. Criam-se condições para que o indivíduo perceba ali algum valor, seja lá qual for o valor que a empresa espera e faça uma decisão de compra.

As cervejas artesanais não entram tanto nessa disputa, mas possuem uma comunicação bem voltada para: “ingredientes especiais, produto de qualidade, produção artesanal”, dentre outros argumentos.

Então se é possível escolher e optar por selecionar uma cerveja artesanal, estará diante de uma decisão de compra e de uma possível quebra de paradigma, caso seja um iniciante. Se escolher, decidir e efetivar a compra, ao tomar e de fato gostar, acende-se uma luz de que aquelas outras opções podem ser boas e que ao menos de vez em quando é possível provar uma delas.

saisons brasileiras cerveja brasileira

Saisons brasileiras estão se tornando boas opões de escolha, até mesmo entre seus pares estranjeiros.

É o começo de um caminho sem volta para muitos. Para os cervejeiros que já possuem alguma bagagem é sempre bom ter novos entrantes neste outro lado do universo da cerveja. Mais amigos, mais troca de ideias, mais gente gostando, falando e até almejando a produzir.

 

  • Argumento 3

Preferência. Algo ligado diretamente à questão da escolha. É também um motivação individual e que, mesmo passível de influências (amigos, blogs, publicidade) encontra sempre razões e emoções que apenas cada um, de fato pode expressar de forma mais efetiva.

Novamente a pessoa pode escolher a gelada tradicional e ser feliz apenas com ela. Ou pode a partir do que estou enumerando (veja, isso não é um estudo com dados estatísticos e metodologia, mas argumentos que são inerentes a um processo subjetivo de escolha) ter optado por experimentar e passar a consumir cervejas artesanais.

karel iv dum cervejaria trip beer

Cervejas artesanais são escolhas que também podem te acompanhar em qualquer lugar

Cada escolha é formulada por uma série de particularidades que cada um possui. A questão principal aqui é: se vou escolher uma cerveja artesanal, o que de fato ela pode me oferecer?

Por isso é bacana até ler sobre o assunto e conversar com outras pessoas, pois a sua escolha passará necessariamente pelo seu gosto e talvez o rótulo e as informações contidas nele não te ajudem o suficiente para saber se aquele estilo está adequado a sua preferência. Se a pessoa não gosta de sabores fortes, IPAs, Porters, Stouts e outros estilos não irão agradar, pelo menos inicialmente. Gosto também é algo a ser trabalhado.

A primeira vez que tomei uma IPA foi difícil chegar até o final do copo. Um amargor que eu não conhecia e que era péssimo. Agora que já aprendi a apreciá-la ela é um dos meu estilos favoritos. Resumo: gosto trabalhado.

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Tenho preferência por cervejarias dos EUA como a The Bruery e por cervejarias brasileiras que resolveram inovar e criar receitas mais inusitadas como as americanas

Com uma rápida busca na internet e conversa com outras pessoas, a posse da informação correta irá permitir uma escolha mais assertiva, combinando preferência, gosto e provavelmente possibilitando uma melhor experiência para a pessoa. Além de reduzir um possível impacto negativo, o que pode afastar de futuras ofertas para beber algo diferente. Imagine uma Imperial IPA, uma bomba de lúpulo, ser a primeira cerveja de um iniciante que não curte sabores fortes e marcantes. Pois é, não vai ser agradável.

dogfish head ancient ales chateau jiahu degustação trip beer

Dogfish Head Chateau Jiahu. É preciso ler para entender os conceitos por trás de uma cerveja como esta, por exemplo, e apreciar os sabores e aromas que ela pode te oferecer.

 

  • Argumento 4

O artesanal, seja moda ou seja escolha de vida. Quem prova com a mente aberta, pelo menos pensa em repetir a dose ou experimentar algo novo em uma nova oportunidade. Com o tempo essa divisão se expande e a pessoa poderá ver que existe um verdadeiro ecossistema artesanal em funcionamento e com milhares de opções.

Em países como os Estados Unidos, as cervejas artesanais estão inseridas em um contexto muito mais amplo. Sustentabilidade, apoio local, ecologia, produtos orgânicos, causas sociais, artesanato, dentre várias outras coisas que juntas, formam uma rede de produtos, conceitos, valores e sentimentos para além da cerveja e que convergem em uma única coisa: qualidade.

tupiniquim omnipollo polimango degustação trip beer

Tupiniquim/Omnipollo é uma cerveja colaborativa exemplo de qualidade

Uma matéria recente publicada no site da Exame mostra a seguinte situação. “O consumo de cervejas especiais cresceu 36% nos últimos três anos no Brasil”.

E continua. “Um quarto dos brasileiros que compram cerveja pelo menos uma vez por mês prefere bebidas com sabor mais encorpado do que o das marcas de maior presença nas prateleiras do supermercado.

Entre os mais jovens a aceitação é ainda maior. Quase 35% dos consumidores até 24 anos preferem cervejas mais fortes. “Parte dessa geração formou seu paladar numa época em que as cervejas artesanais já não eram uma novidade reservada apenas a quem viajava para o exterior com frequência”. Estes são dados da consultoria britânica Mintel, ao qual a publicação teve acesso. Confira a matéria completa aqui.

cervejaria suméria olivia ipalita brasil cluber beer bier degustação ipa glass trip beer

O crescimento no consumo é acompanhado pelo crescimento no número de cervejarias. Esta é a Olivia IPAlito da recente Cervejaria Suméria.

Aqui entra o viés ‘vou beber uma cerveja de verdade’. Sim e não. As outras também são cervejas, mesmo com a questão do milho. O que muita gente não sabe é que existem artesanais feitas essencialmente de milho. Não é só o insumo que conta, o processo também torna o produto diferenciado. E sim, porque no final das contas, já que a tendência é de mais qualidade, muito provavelmente o impacto sensorial que a cerveja artesanal irá te proporcionar será muito mais enriquecedor. Por vezes é um divisor de águas mesmo.

Agora que uma parte é orientada pelo modismo do consumo, talvez seja um fato. Não existem dados sobre isso, o que se pode fazer é explanar opiniões sobre o que se vê. Se pegarmos o crescimento no interesse por tais produtos, ele é permeado por uma série de ofertas de outros produtos e serviços que fazem parte dessa cadeia. Acessórios como copos, chaveiros, abridores, bolachas, placas, camisas, cursos, eventos, palestras, competições, são exemplos fortes de como o mercado se enquadra para aproveitar o momento. Veja aqui nosso post sobre bolachas, por exemplo.

bolachas de chopp coleção coasters trip beer

Bolachas são um dos acessórios que acabam virando objeto de coleção.

Neste sentido temos a força de festivais como o Mondial de La Bière, que irá acontecer no Rio de Janeiro pela segunda vez, o South Beer Cup, o Festival Brasileiro de Cerveja, dentre outros. E o que percebe-se ao ver comentários nas redes sociais é que muita gente está indo pela primeira vez e para se embebedar apenas.

Como parte de qualquer mercado, é um processo natural e que a médio/longo prazo se estabiliza. Lado bom e ruim, como tudo nessa vida. Sempre!

competições cervejeiras south beer cup

A South Beer Cup ocorreu em BH neste ano e foi mais um dos eventos no calendário brasileiro de 2014

Eventos como o International Beer Day (veja aqui) e o Dia da Cerveja Brasileira (veja aqui) que são celebrados pela internet e o IPA Day que é uma festa consagrada ajudam a disseminar a cultura cervejeira e incentivam novas escolhas de cervejas.

international Beer Day 2014 ipa day brasil

International Beer Day e IPA Day Brasil

 

  • Argumento 5

Beba menos, beba melhor. Esse mantra dos cervejeiros é uma boa forma de se pensar o consumo, mas não dá conta de cobrir toda a extensão do assunto. Beber menos e beber melhor não está ligado apenas a um consumo responsável de álcool e a predileção por produtos de qualidade. Está ligado a todos os argumentos anteriores. Um valor a ser trabalhado e que é permeado pelas interações sociais e de consumo (escolha e compra).

Se beber uma boa cerveja já é bom, harmonizá-la com uma boa comida é melhor ainda. Beba menos, beba melhor e experimente. Veja aqui algumas dicas que já demos.

harmonização cervejas

Harmonização são sempre uma boa pedida!

 

  • Argumento 6

Dinheiro. Não adianta gostar, querer, escolher se não houver disposição para a questão financeira. Não se trata de por a cerveja num pedestal, elitizá-la ou tirar onda. Cada um sabe onde o bolso aperta e as possibilidades que o dinheiro que ganha permitem realizar.

O preço é muitas vezes elevado e não se traduz em qualidade efetiva do produto. Isso, alinhado ao acesso, especialmente de cervejas de fora que possuem demanda alta e baixa oferta entre os cervejeiros, eleva o preço no mercado paralelo e também das cervejas do mercado normal. Até 60% do valor da cerveja é imposto, o que faz com que a cervejaria para conseguir lucro, pratique um preço mais elevado. Infelizmente é a realidade brasileira. Claro que há cervejarias que cobram valores bem acima do esperado, mas pra fazer uma avaliação mais coerente sobre isso seria preciso ter acesso a planilha financeira, algo que obviamente não tenho e nem terei.

E cerveja artesanal, na minha opinião nem deve ser calculada com a matemática da gelada do churrasco do final de semana. X litros por X reais. Os mais variados aspectos subjetivos e objetivos influenciam no preço e vai de cada um aceitar pagar ou não por aquela garrafa que deseja. Há, ainda, o fator oportunidade. As vezes aparece aquela cerveja que você tanto queria e não acha em lugar algum.

dark lord three floyds degustação vertical trip beer

Dark Lord 2011 e 2014. Bons exemplos de uma cerveja de valor bem elevado no Brasil já que são pouquíssimas ofertadas em algo que já é limitado mesmo nos EUA.

 

Então vale comprar uma cerveja artesanal?

Ô se vale! Claro que prezo mais por uma cerveja artesanal, mas não dispenso beber uma ‘gelada’ com os amigos sempre que convidado. Tudo possui a sua hora e o seu local. É simples assim, evita chatices e deixa a cerveja fazendo o seu papel trivial: reforçando relações, proporcionando momentos de confraternização e novas amizades.

emelisse russian imperial stout whit label degustação trip beer

Quanto mais experimento, mais quero descobrir. Essa foi a Imperial Russian Stout da Emelisse que conheci este ano. Belíssima cerveja!

Enfim, escolher beber cervejas artesanais é algo bastante subjetivo como tentei demonstrar. Cada um desses argumentos se for ser analisado científicamente é muito mais profundo do que o exposto nesse post. Cada parte do ato de argumentação, do impacto dos processos decisórios de escolha, da percepção de qualidade e dos conceitos agem de diferentes formas em cada um.

No final das contas, o sabor que a cerveja escolhida vai ter na sua boca é que é a verdadeira graça da coisa.

Por isso, todos em especial as cervejarias precisam entender que quando alguém se manifesta falando positiva ou negativamente sobre uma cerveja (respeitando as possibilidades que a lei fornece, afinal para injúria, calúnia e difamação existem consequências) é em uma primeira perspectiva a opinião que aquela pessoa, com a sua liberdade de escolha adquiriu, experimentou e baseada nos seus gostos aprovou ou não e/ou apenas fez ressalvas.

 

Afinal, gosto é igual ao…. Ou melhor, o gosto é diferente, vamos viver com isso!

 

Saúde e boas escolhas!

By | 2014-09-19T03:25:03+00:00 September 17th, 2014|Curiosidades|10 Comments